//Óbito por doença meningocócica em Lages é esclarecido

Óbito por doença meningocócica em Lages é esclarecido

A Vigilância Epidemiológica do Município alerta que não há motivo para pânico. As providências já estão sendo tomadas e a incidência de novos casos é improvável

Após a confirmação de óbito por doença meningocócica de uma estudante de 18 anos, caloura do curso de Medicina Veterinária do Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV/Udesc), a Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive), da Secretaria de Estado da Saúde, e a Vigilância Epidemiológica da Secretaria Municipal da Saúde, organizaram uma coletiva de imprensa com objetivo de prestar esclarecimentos à comunidade.Estavam presentes o Gerente Regional da Saúde, Luiz Spirolli, a Responsável Técnica pelas Meningites da Secretaria de Estado, Gisele Barreto, a Diretora de Atenção Básica da Secretaria Municipal da Saúde, Francine Formiga, a Gerente de Imunização e Doenças Imunopreveníveis da Dive, Lia Coimbra, o Diretor Geral do CAV, Clóvis Gewehr e o Diretor de Ensino da Graduação, professor André Thaler Neto.

A paciente morreu na sexta-feira (5 de abril) e o diagnóstico foi confirmado pelo Laboratório Central de Saúde Pública (LACEN-SC) após exames que identificaram como agente causador da morte a bactéria Neisseria meningitidis, agente causador de infecção generalizada (meningococcemia). A morte ocorreu em menos de 12h após a paciente apresentar os primeiros sintomas. “Não se trata de meningite, pois a doença evoluiu tão rápido que nem chegou a causar inflamação nas membranas que revestem o sistema nervoso central, ou seja, não atingiu as meninges”, esclarece Gisele Barreto, Responsável Técnica pelas Meningites da Secretaria de Estado.

A primeira entrada da paciente no Pronto Atendimento Tito Bianchini foi na quinta-feira (4), onde foi atendida com os seguintes sintomas: febre alta e dor no ouvido. Após exames físicos, constatou-se que não havia nenhuma inflamação no ouvido, foi medicada com antitérmicos e, após apresentar melhora foi liberada por volta das 2h. Em casa a situação se agravou, com vômitos, diarréia, falta de ar e também observou estar com manchas pelo corpo. Às 4h chamou o Samu e retornou ao Pronto Atendimento, onde teve a primeira parada cardíaca, entre 5h e 7h40min e foi a óbito às 10h de sexta-feira (5).

As aulas no CAV seguem normais. Nesta terça-feira (9) profissionais das Vigilâncias Epidemiológicas do Estado e do Município ministrarão palestras com objetivo de esclarecer a evolução da doença e minimizar o pânico entre os universitários. “Não há riscos para os estudantes, que podem frequentar as aulas normalmente. As providências já estão sendo tomadas com aqueles que tiveram maior contato com a aluna que faleceu. Estamos profundamente tristes com o ocorrido, mas a rotina precisa seguir em frente”, comenta Clóvis Gewehr, Diretor Geral da instituição.

Prevenção de novos casos

Após a morte, iniciou-se o processo de investigação das causas e, em menos de 24h obteve-se o diagnóstico preciso através dos exames laboratoriais. Após a confirmação do caso, a Vigilância Epidemiológica do Município iniciou a quimioprofilaxia (administração de antibiótico) para todas as pessoas que tiveram contatos íntimos e prolongados com a paciente: pessoas que moram na mesma casa e que tenham compartilhado o mesmo dormitório.Os medicamentos administrados através da quimioprofilaxia podem ser tomados até dez dias depois do contato com o paciente hospedeiro da bactéria. “Fazemos um apelo à população, para que não entrem em pânico, pois este é um caso isolado e não haverá surtos. A própria Vigilância Epidemiológica entrará em contato com estas pessoas que estiveram muito próximas à paciente e administrará a medicação. Pessoas que tiveram um pequeno contato não precisam nos procurar, pois não há necessidade”, alerta Francine Formiga, Diretora da Atenção Básica do Município.

Doença rara

Neste ano, este é o primeiro caso de doença meningocócica que evoluiu até o óbito em Santa Catarina. Em todo o Estado, apenas oito pacientes apresentaram sintomas da doença e receberam tratamento. Estatísticas apontam se tratar de uma doença rara, com um caso a cada 100 mil habitantes, com incidência em menos de 1% da população catarinense. Ano passado, segundo dados da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive), da Secretaria de Estado da Saúde, foram 89 casos da doença, com 16 mortes.É uma doença de evolução rápida e com alta letalidade, que varia de 7 até 70%. Mesmo em países com assistência médica adequada, a meningococcemia pode ter uma letalidade de até 40%. A faixa etária de maior risco são crianças abaixo dos cinco anos de idade.Os meningococos de maior incidência são os pertencentes aos sorogrupos A, B e C. Desde a década de 40, investe-se no desenvolvimento de vacinas eficazes contra a doença, disponibilizadas gratuitamente na rede pública. Atualmente, são disponíveis vacinas contra os meningococos dos sorogrupos A, C, Y e W-135. Estas vacinas têm limitações tanto em relação à faixa etária em que conferem proteção, como ao tempo de duração da proteção conferida. Por isso não são produtos eficientes para a erradicação ou mesmo para o controle eficaz da doença. Não são utilizadas de rotina em programas de vacinação.

Transmissão

O ser humano é o único hospedeiro natural da N. meningitidis. Cerca de 10% dos adolescentes e adultos são portadores assintomáticos da bactéria na orofaringe (“garganta”) e podem transmitir a bactéria, mesmo sem adoecer. A bactéria é transmitida de uma pessoa para outra pela secreção respiratória (gotículas de saliva, espirro, tosse). Geralmente, após a transmissão, a bactéria permanece na orofaringe do indivíduo receptor por curto período e acaba sendo eliminada pelos próprios mecanismos de defesa do organismo. Desta forma, a condição de portador assintomático tende a ser transitória, embora possa se estender por períodos prolongados de meses a até mais de um ano.

Em menos de 1% dos indivíduos infectados, contudo, a bactéria consegue penetrar na mucosa respiratória e atinge a corrente sanguínea levando ao aparecimento da doença meningocócica. A invasão geralmente ocorre nos primeiros cinco dias após o contágio.

Texto: Aline Tives / Fotos: Toninho Vieira